O Mensageiro da Cruz

sexta-feira, 2 de outubro de 2009


(O que se segue é um artigo escrito pelo irmão Watchman Nee em Kulongsu, Amoi, em 15 de janeiro de 1926.)

Ultimamente muitas pessoas parecem estar cansadas de ouvir a palavra da cruz. Entretanto, agradecemos e louvamos a Deus Pai por Ele ter reservado para Seu próprio nome muitos fiéis que não dobraram os joelhos a Baal. Todavia, sinto que há algo que os fiéis servos de Cristo devem conhecer. Por que, após haverem labutado tanto na pregação a respeito da cruz, os resultados têm sido tão desencorajadores e as pessoas não têm tido muita mudança em sua vida após ouvir a verdadeira Palavra de Deus? Penso que esse problema é digno da nossa maior atenção. Nós, que laboramos pelo Senhor devemos entender por que os outros não são subjugados pelo evangelho que pregamos. Espero que possamos orar calmamente diante do Senhor e pedir que o Espírito de Deus ilumine nosso coração a fim de sabermos onde se encontra nossa falha.

No tempo presente, deveríamos atentar à palavra que pregamos. Não precisamos mencionar os que pregam o falso evangelho. A crença deles de qualquer forma está errada. O que pregamos é a crucificação do Senhor Jesus Cristo e como ela salva os pecadores da condenação do pecado e do poder do pecado. Ao pregar, damos muita atenção ao esboço, à lógica e ao pensamento. Fazemos o melhor que podemos para tornar nosso falar claro. Dessa forma, mesmo a pessoa mais iletrada pode entender. Também damos atenção à psique do homem e empenhamo-nos o máximo em nossa eloqüência para corresponder ela. O que pregamos é verdadeiro e bíblico: o nosso tema é a cruz do Senhor Jesus. Sabemos que o Senhor Jesus morreu pelos pecadores na cruz para que todo o que Nele crê seja salvo à parte de qualquer obra. Também sabemos que a crucificação do Senhor Jesus não visa somente a substituição, mas também a crucificação do pecador e juntamente com ele seu pecado. Conhecemos a maneira de ser salvos. Sabemos como morrer com o Senhor, como aplicar a morte do Senhor pela fé e como morrer com Ele a fim de lidar com o pecado e o ego. Também temos clareza acerca de outras doutrinas afins na Bíblia. A nossa pregação é apresentada de maneira exata e clara para que qualquer dos ouvintes possa compreendê-la. Os ouvintes prestam muita atenção a nós quando pregamos a cruz do Senhor; eles gostam dela e são tocados por ela. Podemos mesmo ser dotados de eloqüência e ser aptos a apresentar a verdade de modo persuasivo. Podemos pensar que nossa obra é muito eficaz! Sob tais circunstâncias, deveríamos ver muitas pessoas recebendo vida e muitos crentes ganhando a mais abundante vida. Entretanto, os resultados são contrários ao que esperamos. Embora os ouvintes sejam tocados no local de reunião, eles não ganham qualquer coisa que esperávamos vê-los ganhar após deixar o local de reunião, muito embora as palavras ainda estejam frescas na mente deles. Eles não têm qualquer mudança em sua vida. Entendem o que pregamos, mas isso não tem qualquer influência em seu viver diário. Apenas armazenam no cérebro a palavra pregada. Eles não a aplicam no coração.

Uma possível explicação para isso é que o que você possui é apenas eloqüência, palavras e sabedoria. É como se atrás de suas palavras não houvesse o poder que toca o coração das pessoas. Você tem as melhores palavras e a melhor voz, contudo atrás das palavras e da voz você não tem o tipo de poder que "controla" a vida das pessoas. Em outras palavras, você pode fazer com que as pessoas ouçam-no atentamente no local de reunião, mas o Espírito Santo não coopera com você. Portanto, seu labor é ineficiente e não produz resultados duradouros. Suas palavras não conseguem deixar marca duradoura na vida das pessoas. Apesar de da sua boca fluírem palavras, de seu espírito não flui vida para alimentar, levantar e vivificar os ouvintes que perecem.

Nos últimos anos, o Senhor tem-me dito para ser cuidadoso quanto a esse tipo de pregação. Não almejamos ser oradores populares (nosso Senhor é doador de vida). Nós almejamos ser canais de vida, conduzindo-a para dentro do coração das pessoas. Ao pregar a cruz, deveríamos ter a vida da cruz fluindo para a vida de outros. A coisa mais lamentável a meu ver é que, embora muitos preguem a cruz hoje, as pessoas não têm ganhado a vida de Deus. Elas parecem concordar com nossas palavras e recebem-na alegremente; contudo, não têm recebido a vida de Deus. Muitas vezes, enquanto pregamos a morte substitutiva da cruz, os homens parecem entender o significado e o porquê da substituição, e ser tocados no momento. Entretanto, não podemos ver a graça de Deus operando nos ouvintes a ponto de, verdadeiramente, obterem a vida regenerada. Pregamos também a co-crucificação e a explicamos de maneira bem clara e comovente. No momento em que as pessoas ouvem, podem orar e decidir-se a morrer juntamente com o Senhor e a ganhar as experiências de vencer o pecado e o ego. Mas após tudo haver terminado, não as vemos ganhar a mais abundante vida de Deus. Tais resultados entristecem-me muito. Isso faz com que me humilhe diante do Senhor a fim de buscar a Sua luz. Se tiver a mesma experiência que eu, espero que você se contriste diante do Senhor como eu e arrependamo-nos das nossas faltas. O que nos falta de fato no momento são homens e mulheres que preguem a cruz, contudo o que mais necessitamos além disso são pregadores que preguem a cruz no poder do Espírito Santo.

Leiamos agora a Palavra de Deus. Paulo disse: "Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder" (1 Co 2:1-4). Nesses versículos vemos três coisas: 1) a mensagem que Paulo pregou; 2) a pessoa do próprio Paulo, e 3) a maneira com que Paulo pregou sua mensagem.



A MENSAGEM PREGADA POR PAULO


A mensagem que Paulo pregou foi o Senhor Jesus Cristo, e este crucificado. O assunto da sua pregação foi a cruz de Cristo e o Cristo crucificado. Ele nada sabia exceto isso. Se esquecermos da cruz e não fizermos dela e de Cristo nosso único assunto, quanto nós e nossos ouvintes iremos perder! Creio que certamente não somos dos que não pregam a cruz.

A nossa mensagem e assunto podem ser bons.

Todavia, não temos a experiência de ter uma mensagem boa e, ainda assim, ser incapazes de dispensar vida a outros? Deixe-me ressaltar que uma vez que a mensagem que pregamos é importante, se ela não pode dar vida a outros, a nossa obra é quase totalmente vã. Deveríamos lembrar que o objetivo da nossa obra é dar vida às pessoas. Pregamos a morte substitutiva da cruz para que Deus dê a Sua vida aos que crêem. Se as pessoas são incitadas ou estimuladas ou até se arrependem e concordam com o que pregamos, mas não têm a vida de Deus nelas, de que adiantará isso? Elas podem mostrar-se simpáticas exteriormente, mas não são salvas. Portanto, a nossa meta não é fazer as pessoas se arrependerem por si mesmas nem influenciá-las em sua mente, mas dispensar a vida de Deus a elas para que tenham vida e sejam salvas. Até mesmo ao pregar as verdades mais profundas ou tentar ajudar outros a compreender a verdade sobre a co-crucificação, o mesmo princípio permanece verdadeiro. É fácil fazer com que as pessoas saibam e entendam o que pregamos. Também não é difícil fazer com que outros aceitem nossos ensinamentos em sua mente. Qualquer cristão com um pouco de conhecimento pode entender se você lhe explicar os assuntos de modo suficientemente claro. Entretanto, se desejar que ele ganhe vida e poder e que experimente o que você prega, não existe outro caminho a não ser o de Deus dispensar a mais rica vida a ele, por seu intermédio. Deveríamos saber que nossa única obra é ser canais da vida de Deus, comunicando vida ao espírito dos outros. Portanto, mesmo que o assunto ou a mensagem que pregamos sejam bons, ainda necessitamos descobrir se somos ou não canais adequados para Deus transmitir vida ao interior das pessoas.



O PRÓPRIO PAULO


A mensagem pregada por Paulo era a cruz do Senhor Jesus Cristo. A sua mensagem não era em vão, pois ele era um vivo canal de vida. Ele gerou muitos por meio do evangelho da cruz. O que ele pregava era a palavra da cruz. Sobre ele mesmo, disse que estava "em fraqueza, temor e grande tremor". Ele era um homem crucificado! Somente um homem crucificado pode pregar a palavra crucificada. Ele não tinha confiança em si próprio e não confiava em si mesmo. Fraqueza, temor, tremor, ser esvaziado da autoconfiança, considerar-se totalmente inútil: essas são as características de um homem crucificado. Ele disse: "Estou crucificado com Cristo" (Gl 2:19b) e "Dia após dia, morro!" (1 Co 15:31). Somente um Paulo morto poderia pregar uma palavra sobre crucificação. Se não houvesse morrido de modo real, a vida da morte do Senhor não poderia ter fluído dele. É fácil pregar a cruz, mas não é fácil pregá-la como um homem crucificado. A não ser que alguém seja uma pessoa crucificada, ele não pode pregar a palavra da cruz e não pode dar a outros a vida da cruz. Rigorosamente falando, a não ser que alguém conheça a cruz, na experiência, ele não é digno de pregar a cruz.



A MANEIRA COMO PAULO PREGOU SUA MENSAGEM


A mensagem de Paulo era a crucificação. Ele próprio era um homem crucificado e pregou a cruz à maneira da cruz. Era um homem da cruz, pregando a mensagem da cruz com o espírito da cruz. Muitas vezes o que pregamos é a cruz, mas a nossa atitude, as nossas palavras e nosso sentimento não dão a impressão de que pregamos a cruz! Muitas pregações sobre a cruz não são feitas no espírito da cruz! Paulo disse: "Eu (...) fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho (mistério)[1] de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria". Aqui o mistério de Deus refere-se à palavra da cruz. Paulo não pregou a cruz com excelência no falar ou sabedoria. "A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder". Esse é o Espírito da cruz. A cruz é sabedoria para Deus, mas loucura para o homem. Ao pregar a palavra dessa loucura, deveríamos ter a aparência de "loucura", a atitude de "loucura" e o falar de "loucura". Paulo obteve a vitória porque era de fato um homem crucificado. Ele pregava a cruz com o espírito da cruz e a atitude da cruz. Os que não têm experimentado a crucificação não serão preenchidos com o espírito de crucificação, e não são dignos de pregar a palavra da cruz.

Após ver a experiência de Paulo, não nos diz ela a razão de nossas falhas? A mensagem que pregamos pode ser boa, mas deveríamos examinar-nos à luz do Senhor: somos realmente homens crucificados? Com que tipo de espírito, palavra e atitude pregamos a cruz? Possamos humilhar-nos diante dessas questões para que Deus tenha misericórdia de nós.

Não nos referimos aos que pregam um "evangelho diferente". Falamos apenas acerca dos que pregam "o evangelho da graça de Deus". A palavra não é incorreta, nossa mensagem não é má; todavia, por que os outros não ganham vida? Isso deve ser por causa da falha do pregador! É a pessoa que está errada, e não a palavra que perdeu o poder.

É o homem que tem obstruído o fluir da vida de Deus, e não a Palavra de Deus que tem perdido a eficácia. Quando o homem que prega a cruz não possui, ele mesmo, a experiência da cruz nem o espírito da cruz, não pode dispensar aos outros a vida da cruz. Não podemos dar a outros o que não temos. Se a cruz não se torna a nossa vida, não podemos dar a vida da cruz a outros. A deficiência do nosso serviço advém de gostar de dar a cruz a outros sem perceber que não a temos em nós. Os que são bons em pregar a outros, devem ser bons em pregar primeiro a si mesmos. Caso contrário, o Espírito não cooperará com eles.

Embora a mensagem que pregamos seja importante, não devemos enfatizar demais a mensagem e esquecer de nós mesmos. Podemos obter algum conhecimento dos livros sobre a palavra da cruz que pregamos. Podemos utilizar a mente buscando os seus muitos significados na Bíblia. Entretanto, todos eles serão emprestados; eles não nos pertencem. Os que têm mente esperta são mais perigosos que os demais. Um pregador pode colocar-se em maior perigo que outros, pois todo o estudo, leitura, pesquisa e ouvir pode ter sido feito para os outros e não para si mesmo. Ele pode laborar para os outros simplesmente para encontrar-se espiritualmente faminto! Podemos ouvir palavras profundas sobre os vários aspectos da cruz ou ler livros sobre os significados da substituição e co-crucificação. Se tivermos mente esclarecida, podemos mesmo ordenar adequadamente esses ensinamentos, de modo que, ao falar, desenvolvamos as coisas que ouvimos e pensamos de maneira muito clara e sincera, tendo tudo bem organizado e todos os pontos apresentados com clareza e os argumentos divididos nitidamente. Podemos levar os ouvintes a pensar que entenderam tudo. Contudo, a despeito do fato de que tenham entendido tudo, não há um poder motivador que faça com que busquem ganhar o que compreenderam. Eles parecem pensar que entender as doutrinas da cruz seja suficiente. Eles param nas coisas que entenderam e não buscam obter o que a cruz lhes promete dar. Mesmo que o orador entenda o pensamento dos ouvintes, tenha voz audível e sincera, e insista que não tomem somente a doutrina, mas busquem ter a experiência, seus ouvintes podem ser incitados apenas naquele momento. Eles ainda não receberam vida; ainda têm somente a teoria, e não a experiência. Nunca devemos estar satisfeitos com nós mesmos e achar que a nossa língua "de prata" pode manobrar os ouvintes. Eles podem ficar emocionados no momento, contudo serão apenas considerações ou doutrinas que temos de dar-lhes? Ou precisamos dar-lhes vida? Sem dar vida ao homem, em nada contribuímos para sua espiritualidade. Qual é o proveito de dar ao homem somente considerações ou doutrinas? Que esse conceito seja profundamente incutido em nosso ser para que nos arrependamos da inutilidade da nossa obra passada!

A razão por que ninguém ganha vida pela nossa pregação da cruz é que: 1) nós mesmos não temos a experiência da cruz, e 2) não fazemos uso do espírito da cruz para pregar a palavra da cruz.



O MOTIVO DO INSUCESSO DOS QUE PREGAM A CRUZ


Os que não estão crucificados não podem ser e não são dignos de pregar a mensagem da cruz. A cruz que pregamos deveria crucificar-nos primeiro. A mensagem que pregamos deveria queimar em nossa vida primeiro para que a nossa vida e a nossa mensagem possam estar mescladas. Desse modo a nossa vida tornar-se-á nossa mensagem viva. A cruz que pregamos não deve ser mera mensagem. Deveríamos diariamente experimentar de fato a cruz em nossa vida. O que pregamos não deveria ser somente uma mensagem, e, sim, a vida que temos diariamente. Ao pregar, dispensamos essa vida a outros. O Senhor Jesus disse que a Sua carne é comida e Seu sangue é bebida. Partilhar da cruz do Senhor Jesus pela fé é como comer a Sua carne e beber o Seu sangue. Entretanto, comer e beber não são apenas palavras vazias. Após comer e beber, digerimos o que comemos e bebemos a fim de tornar-se parte de nós: tornar-se nossa vida. Nossa falta reside no fato de que muitas vezes estudamos a Palavra de Deus fiados em nossa sabedoria e preparamos nossos apontamentos com as considerações próprias. Freqüentemente tomamos o conhecimento ganho de livros e doutrinas que ouvimos dos mestres e amigos e fazemos deles nossos sermões. Embora tenhamos tantos bons pensamentos e idéias, e embora os ouvintes nos ouçam com muita atenção e interesse, todo a obra termina ali mesmo. Não podemos dispensar a vida de Deus a outros. Apesar de pregar a palavra da cruz, não podemos dispensar a vida da cruz a outrem. Podemos apenas dar pensamentos e idéias às pessoas. Entretanto, o que falta a elas não são bons pensamentos, mas vida!



VIDA


Não podemos dar aos outros o que não temos. Se temos vida, podemos dar vida a outrem. Se o que temos são somente pensamentos, podemos somente dar pensamentos às pessoas. Se não tivermos a experiência da crucificação em nossa vida, se não tivermos a experiência de morrer juntamente com o Senhor vencendo o pecado e o ego, se não tivermos a experiência de tomar a cruz e seguir ao

Senhor para sofrer por Ele, e se apenas conhecermos a palavra da cruz a partir dos escritos e da boca de outros e, no entanto, não tivermos nós mesmos a experiência, certamente não poderemos dar vida às pessoas, mas somente teorias da vida da cruz. Somente quando somos transformados pela cruz e quando recebemos a vida e o espírito da cruz, podemos dispensar a cruz a outros. A cruz deveria, diariamente, efetuar uma obra mais profunda em nossa vida para podermos ter experiências sólidas do sofrimento e da vitória da cruz. Ao pregar, nossa vida fluirá espontaneamente por intermédio das palavras e o Espírito derramará Sua vida por meio da nossa vida para saciar os sedentos, os ouvintes. As idéias podem alcançar somente o cérebro do homem; elas resultam apenas em mais pensamentos para seu cérebro. Somente a vida pode alcançar o espírito do homem e o resultado é que o seu espírito recebe tanto uma vida regenerada como uma vida mais abundante.

O pensamento, palavras, eloqüência e teorias do homem podem somente incitar e alcançar a alma humana, pois podem somente estimular a motivação, a emoção, a mente e a vontade do homem. Somente a vida pode alcançar o espírito do homem. Toda a obra do Espírito Santo é em nosso espírito (Rm 8:16; Ef 3:16). Somente quando estamos na experiência do espírito, fluindo a vida de nosso espírito, o Espírito Santo pode derramar Sua vida no espírito de outros por nosso intermédio. Assim sendo, é a coisa mais inútil salvar os pecadores e edificar os santos pela própria mente, eloqüência e teoria do homem. Embora o que alguém fale seja muito persuasivo exteriormente, devemos saber que o Espírito Santo não coopera com ele. O Espírito Santo não está por detrás de suas palavras e não trabalha com ele por intermédio da Sua autoridade e poder. Os ouvintes apenas ouvem as palavras; não há mudança alguma na vida. Apesar de algumas vezes fazerem votos e resoluções, estes são apenas estímulos na alma. Não há vida atrás das palavras. Como resultado, não existe o poder para que ganhem o que ainda não obtiveram. Onde há vida, há poder. Nas questões espirituais, não haverá poder se não houver vida. Portanto, se você não permite que o Espírito Santo derrame Sua vida por intermédio da sua vida no espírito de outros, estes não terão a vida do Espírito Santo e não terão o poder para praticar o que você prega. O que buscamos não é eloqüência, mas o poder do Espírito Santo. Que o Espírito de Deus nos faça compreender que pensamentos podem somente alcançar a alma do homem, e apenas a vida pode fluir para o espírito humano.

A vida a que nos referimos aqui é a experiência da palavra de Deus em nossa vida e a experiência da mensagem que pregamos. A vida da cruz é a vida do Senhor Jesus. Deveríamos primeiro testar nossa mensagem por meio da experiência. A doutrina que entendemos é somente doutrina. Deveríamos deixar primeiro a doutrina trabalhar em nós para que a doutrina que entendemos se torne parte da nossa vida e parte dos elementos vitais de nosso viver diário, e não mais se torne somente doutrina, mas a vida de nossa vida. É como o alimento que comemos tornando-se a carne da nossa carne e osso dos nossos ossos. Assim, tornamo-nos uma doutrina viva. Dessa maneira, a palavra que pregamos já não é apenas uma teoria que conhecemos, mas nossa vida real. Isso é o que a Bíblia quer dizer com "praticantes da palavra" (Tg 1:22). Freqüentemente entendemos mal o termo "praticantes". Achamos que "praticantes" são os que dão o melhor de si para seguir a palavra que ouvem e entendem. Entretanto, isso não é o "praticar" na Bíblia.

É verdade que devemos tomar a decisão de praticar o que ouvimos, mas o "praticar" na Bíblia não é o "praticar" com a própria força da pessoa. Antes, é permitir que o Espírito Santo, a partir da vida da pessoa, viva a palavra que ela conhece. Isso é um tipo de viver, e não um tipo de obra. Se existir o viver, espontaneamente haverá a obra. Fazer algumas obras esporádicas não é o "praticar" descrito na Bíblia. Deveríamos cooperar com o Espírito Santo em nossa vida por meio da vontade a fim de, na experiência, viver o que conhecemos. Dessa maneira estaremos aptos a dispensar vida a outros.

Saberemos que exemplo seguir se olharmos para o Senhor Jesus Cristo. Ele disse: "Assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que Nele crê tenha a vida eterna" (Jo 3:14-15) e "E Eu, se for levantado da terra, atrairei todos a Mim mesmo. Isto dizia, significando de que gênero de morte estava para morrer" (Jo 12:32-33). O Senhor Jesus teve de ser crucificado antes de atrair todos a Si mesmo e dispensar a vida espiritual a outros. Ele mesmo teve de morrer primeiro, experimentar a cruz primeiro e ter o operar da cruz interior e exteriormente, fazendo Dele um homem crucificado em realidade primeiro, antes de ter o poder de atrair todos para Si. O discípulo não está acima do Seu mestre. Se o nosso Senhor teve de ser levantado antes de poder atrair todos a Si mesmo, não deveríamos nós, que levantamos o Senhor Jesus crucificado, ser levantados e crucificados antes de poder atrair as pessoas para o Senhor? A fim de que o Senhor Jesus dispensasse vida espiritual a outros, Ele teve de ser levantado na cruz. Da mesma maneira, se desejamos dispensar a vida espiritual a outros, também precisamos ser levantados na cruz. Somente então o Espírito Santo derramará Sua vida por meio de nós. A fonte da vida provém do dispensar da vida a outros por intermédio da cruz. Não deveria também o canal da vida provir do dispensar da vida a outros por meio da cruz?

O CANAL DA VIDA

Temos dito que a nossa obra é dispensar vida a outros. Entretanto, nós mesmos não possuímos a vida para dar a outros, para avivar a outros e para suprir a outros. Nós não somos a fonte, mas o canal. A vida de Deus flui por meio de nós e flui do nosso interior. Somos os canais. Os canais não devem ser obstruídos senão a água não pode fluir por eles. A palavra da cruz efetua a obra de desobstrução, removendo tudo o que pertence a Adão e ao homem natural, a fim de que possamos receber a vida do Espírito Santo e Dele ser saturados. Dessa maneira, o nosso espírito constantemente carregará a cruz do Senhor até o ponto de a nossa vida tornar-se a vida de cruz. Trataremos esse ponto de forma breve. Uma vez que estejamos saturados do Espírito Santo e tenhamos a vida de cruz, o Espírito Santo nos usará para fluir a vida de cruz do nosso interior para os que estão ao nosso redor. Se realmente permitirmos à cruz que faça profunda obra em nós, a ponto de ficarmos preenchidos pelo Espírito Santo, espontaneamente deixaremos fluir vida para suprir os que contatamos, seja ao falar ou pregar em público ou a indivíduos. Isso não é algo que exije esforço intencional ou planejamento, mas algo muito espontâneo. Daremos fruto espontaneamente. Isso é o que o Senhor Jesus quis dizer em João 7:38: "Quem crer em Mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva". Existem vários significados aqui. Seu ser mais interior primeiro deve ser esvaziado e receber o operar completo da cruz. Seu ser mais interior deve ser cheio da água viva do Espírito Santo. A vida nele não é suficiente apenas para sua própria necessidade, mas superabundante e suficiente a ponto de fluir dele rios de água viva para suprir a outros da mesma água viva. Devemos atentar à palavra "fluir" aqui. Não é por meio de manobras pela voz, pela psicologia, pela eloqüência, por doutrina ou por conhecimento. Embora tais métodos possam ajudar-nos algumas vezes, eles não são a água viva. Tampouco o emprego desses métodos é o fluir da água viva. Fluir é algo muito natural; não requer qualquer labor humano. Pelo contrário, tudo desliza normalmente. Não necessitamos de nenhuma eloqüência ou teoria. Precisamos somente pregar a palavra da cruz do Senhor fielmente e as pessoas receberão a vida de que carecem. A vida e o poder do Espírito Santo de alguma forma fluirão espontaneamente através do nosso espírito. Caso contrário, mesmo que ensinemos diligentemente, os ouvintes ouvirão indiferentemente! Algumas vezes podem ouvir atentamente e entender e ser tocados pelo que ouviram. Contudo, somente reagirão com a palavra "maravilhoso". Eles ainda não têm o poder e a vida para levar a cabo o que ouviram. Oh! que possamos ser os canais da vida de Deus hoje!

Para ser os canais, precisamos ter a experiência. Tratamos dessa questão no tópico anterior. A não ser que a tenhamos, o Espírito Santo não trabalhará conosco. Após receber o poder do Espírito Santo, todas as nossas obras serão em natureza um testemunho (Lc 24:48-49). Na verdade, toda a nossa obra é um testemunho para o Senhor. Uma testemunha não pode testificar o que não viu. Ninguém pode testificar o que não experimentou. Falando seriamente, a pessoa dá falso testemunho se não tem experiência do que prega! Se fizermos isso, o Espírito Santo não cooperará conosco. Outra coisa que deveríamos saber é que, quer esteja o Espírito Santo ou o espírito maligno operando, deve haver homens como canais de poder. Se não temos experiência do que pregamos, o Espírito Santo definitivamente não poderá usar-nos como Seu canal por meio do qual Ele emana Sua vida para o coração das pessoas.

Portanto, que a cruz que pregamos possa crucificar-nos nela! Que possamos tomar a cruz que pregamos! Que primeiro ganhemos a vida que desejamos dispensar a outros! Que a cruz que pregamos seja a cruz que diariamente experimentamos em nossa vida! Se a mensagem que pregamos deve ter efeito permanente, precisa primeiro tornar-se o alimento do nosso espírito. Ela precisa estar profundamente gravada em nosso coração e ser queimada e marcada em nossa vida pelos sofrimentos do viver diário. Por meio disso, cada ação nossa levará a marca da cruz. Somente os que trazem no corpo as marcas do Senhor Jesus (Gl 6:17) podem pregá-Lo. Irmãos, deixem-me dizer-lhes: embora os pensamentos que repentinamente cruzam sua mente ou o conhecimento que você adquire dos livros concedam-lhe o sorriso dos ouvintes, eles não terão efeito duradouro. Se a sua obra é apenas fazer as pessoas sorrirem, podemos achar que estamos fazendo grande obra com nossos sermões, meramente coletando algum material da mente e emoção. Esse, entretanto, não é o alvo da nossa obra!



O SUCESSO DO APÓSTOLO


A mensagem da cruz tocou profundamente a Paulo. Sua vida foi uma manifestação da vida da cruz. Ele não somente pregava a cruz, mas vivia a cruz. A cruz que pregava era a cruz que vivia. Portanto, quando falava da cruz, podia acrescentar a ela a própria experiência e testemunho. Ele não apenas conhecia a morte substitutiva do Senhor Jesus, mas tomou a cruz do Senhor como sua cruz na experiência. Ele era capaz de dizer: "Estou crucificado com Cristo" (Gl 2:19) e "estou crucificado" (6:14). Sua humildade, paciência, enfermidades, prantos, sofrimentos e cadeias foram todos a manifestação da vida da cruz. Por ser alguém que vivia a cruz, ele podia pregar a cruz. As pessoas por vezes criticam os outros como os que não praticam o que pregam. Contudo, na verdade, ninguém pode sequer pregar o que não pratica! Porque Paulo era capaz de viver o seu evangelho, ele era apto a gerar muitos filhos espirituais por meio do evangelho. Ele mesmo possuía a vida de cruz. Como resultado, ele era capaz de "reproduzir" essa cruz no coração dos outros.



A CRUZ E SEU MENSAGEIRO


A. Experiência Pessoal


Após ler 2 Coríntios 4 (por favor, leia), iremos perceber a experiência íntima desse servo do Senhor. O segredo de toda a sua obra era: "Em nós opera a morte; mas em vós, a vida" (v. 12). Paulo passava pela morte diariamente. A cada dia ele permitia que a cruz fizesse uma profunda obra em seu coração para que outros ganhassem vida. Se alguém não tem a morte da cruz em si mesmo, os outros não podem ganhar a vida de cruz. Paulo estava disposto a sofrer morte para que outros ganhassem vida. Somente os que morreram podem dar vida a outros. Todavia, como isso é difícil!

Qual o significado de morte aqui? Não é somente a morte para o pecado, o ego e o mundo. Aqui, ela tem significado mais profundo que isso. Essa morte é o espírito que é manifestado pela crucificação do Senhor Jesus. Ele não morreu pelo próprio pecado. Sua cruz foi uma manifestação da Sua santidade. A Sua crucificação foi totalmente em benefício de outros. Ele morreu em obediência à vontade de Deus. Esse é o significado dessa morte aqui. Não é somente em benefício próprio que somos crucificados para o pecado e o mundo, mas é por causa da nossa obediência ao Senhor Jesus que diariamente sofremos oposição dos pecadores e somos levados à morte. Devemos permitir que a morte do Senhor Jesus trabalhe em nós a ponto de verdadeiramente termos a experiência da morte do nosso ego e de sermos santificados. Além disso, devemos permitir ao Espírito Santo, por meio da cruz, realizar uma obra mais profunda em nós para que vivamos a cruz em realidade. Devemos não apenas ter a morte da cruz, mas além disso ter a vida de cruz. Quando temos a morte da cruz, estamos mortos para o pecado e para a vida adâmica. Quando temos a vida de cruz, damos um passo a mais e tomamos o espírito da cruz como a própria vida no viver diário. Isso significa que manifestamos no viver diário o espírito do Senhor Jesus como o Cordeiro que sofreu em silêncio e, "quando ultrajado, não revidava com ultraje, quando maltratado não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente" (1 Pe 2:23). Esse é um passo mais profundo do que ser crucificado para o pecado, o ego e o mundo. Possa a cruz tornar-se nossa vida a fim de que sejamos uma cruz viva e manifestemos a cruz em tudo.

Paulo era capaz de dar vida a outros porque para ele o viver era a cruz. Ele não apenas aplicou passivamente a morte da cruz para terminar com tudo o que provinha do velho Adão, mas ativamente tomou a cruz como sua vida e dia a dia viveu a cruz em realidade. Dia após dia, ele apreendeu o significado da cruz do Senhor. Ao mesmo tempo, dia após dia, expressou a vida do Senhor como o Cordeiro (a cruz). Ele estava "levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo" (2 Co 4:10). Ele estava disposto a ser sempre entregue "à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus [a cruz] se manifeste em nossa carne mortal" (v. 11). Portanto, ele pôde ser atribulado, porém não angustiado; perplexo, porém não desanimado; perseguido, porém não desamparado; abatido, porém não destruído (vs. 8-9). Ele permitiu que a morte do Senhor Jesus "operasse" nele (v. 12). Uma morte capaz de operar é uma "morte viva". É a vida da morte, a vida da cruz. Ele estava sempre disposto a suportar insultos, arbitrariedades, perseguições cruéis e equívocos irracionais por causa do Senhor. Ele estava disposto a ser entregue à morte sem dizer uma palavra. Sob tais circunstâncias, ele era como seu Senhor que, apesar de ter poder para pedir ao Pai que enviasse doze legiões de anjos para resgatá-Lo e escapar das circunstâncias pelo método humano, preferiu não fazê-lo. Ele preferiu deixar a "morte viva" de Jesus, isto é, a vida e o espírito da cruz, operar nele até o ponto em que ele agisse e se conduzisse no espírito da cruz. Ele percebeu que com a cruz havia o poder, um poder que o capacitava a entregar-se à morte por causa de Jesus e a sofrer perseguição e tribulações sob a mão humana. Quão profundamente havia a cruz operado em Paulo! Que bom seria se também pudéssemos levar "no corpo o morrer de Jesus!" Quem pode dizer ao Senhor que está disposto a morrer e a não resistir em meio a todas as circunstâncias de oposição e sofrimento! Mas se queremos que outros ganhem a cruz, ela deve primeiro controlar nossa vida. É somente após a cruz ter sido trabalhada em nossa vida por meio de ardentes sofrimentos e oposições que podemos reproduzir essa cruz na vida de outros. Em outras palavras, a vida da cruz é a vida que põe em prática o sermão do Senhor na montanha (Mt 5-7, ver 5:38, 44).

A passagem aqui em 2 Coríntios diz-nos claramente que não devemos apenas pregar, mas manifestar a vida do Senhor Jesus (4:10-1 l),e devemos deixar a vida do Senhor Jesus fluir a partir do nosso corpo. Podemos deixá-la fluir somente quando constantemente levamos no corpo o morrer do Senhor Jesus, quando somos entregues à morte por causa Ele, quando sofremos perda em nossa reputação, mente e corpo por Sua causa e quando expressamos o caminho do Cordeiro do Gólgota em meio a todos esses sofrimentos (vs. 10-11). Infelizmente, muitas vezes gostamos de tomar os atalhos! Pouco percebemos que não há atalho para manifestar a vida do Senhor Jesus!

"Em nós, opera a morte; mas, em vós, a vida" (v. 12). "Vós" refere-se aos coríntios e a todos os santos (1:2); eles são os ouvintes de Paulo. Porque a morte do Senhor Jesus pôde operar em Paulo, ele foi capacitado a ter a vida do Senhor Jesus trabalhada em seus ouvintes para que recebessem a vida espiritual. A palavra "vida" nesse versículo é zoé, que na língua original significa a vida espiritual, a vida mais elevada. O que Paulo foi capaz de exaltar e dar a outros não foi apenas o seu falar, pensamentos e uma cruz de madeira. Paulo desejou que eles ganhassem a vida espiritual do Senhor, Essa vida espiritual operou no coração deles e possibilitou-lhes atingir o alvo da mensagem de Paulo. Essa não foi uma pregação vã, mas uma pregação que entrou no coração árido de seus ouvintes com extraordinária vida e poder, para que realmente receberam a vida da cruz que Paulo pregou. O resultado da nossa pregação da cruz deveria produzir tal resultado. Não deveríamos estar satisfeitos se a nossa pregação não tem resultado como a de Paulo. Resumindo, alguém que não vive a cruz como Paulo o fez não pode esperar ter um resultado como o dele. Se não somos pessoas crucificadas, certamente nos será difícil pregar a cruz e conceder vida a outros.



B. O Método de Pregar


Sabemos que Paulo não somente pregou a cruz como uma pessoa crucificada, mas pregou-a no espírito da cruz. No viver diário ele foi uma pessoa crucificada; na sua pregação também foi uma pessoa crucificada. Ele anunciava a cruz vivendo a cruz. Era uma pessoa crucificada com Cristo. Essa era sua experiência em vida. Ao anunciar a cruz, ele não exercitou a "ostentação de linguagem ou sabedoria", ou "linguagem persuasiva de sabedoria" (1 Co 2:1,4), nas quais era capaz. Ele sabia que estas não serviriam como meios adequados para o canal de vida de Deus. Em vez disso, ele confiou na "demonstração do Espírito e de poder" (v. 4). Tal pregação é aquela em que a palavra da cruz é pregada com a atitude da cruz. Com sua habilidade e experiência, ele certamente poderia ter articulado a verdade da cruz em palavras persuasivas e teorias inteligentes, capturando a atenção dos ouvintes e fazendo-os compreender o que tinha a dizer. Ele poderia ter feito a cruz cruel parecer muito interessante. Poderia ter usado muitas ilustrações apropriadas e provérbios simples para expor o mistério da cruz. Poderia ter citado a Escritura e explanado a filosofia da cruz, esclarecendo aos outros a morte substitutiva e a co-crucificação da cruz. Paulo era capacitado para fazer essas coisas, mas não as faria. Seu coração não confiava nessas coisas, pois sabia que não poderiam dar vida a outros. Ele sabia que fazendo isso, estaria pregando a grande verdade da cruz com meios contrários à cruz. Para o mundo, a cruz é humilde, baixa, tola e feia. Isso é o que a cruz é de qualquer modo. Anunciá-la com ostentação de linguagem e sabedoria mundanas seria contrário ao espírito da cruz e não teria qualquer proveito. Paulo desejava abandonar seu intelecto natural e anunciar a cruz com a atitude e o espírito da cruz. Esse foi o motivo pelo qual Deus o usou grandemente.

Cada um de nós tem dons naturais. Alguns podem ter mais; outros, menos. Após ter passado pela experiência da cruz, temos a tendência de confiar na força natural ou valer-nos dela para anunciar a cruz que acabamos de experimentar. Como nosso coração deseja que os ouvintes vejam o que temos visto ou ganhem a mesma experiência que nós! Contudo, quão frios e indiferentes estão os ouvintes! Como eles nos desapontam! Pouco percebemos que nossa experiência da cruz ainda é imatura, nossos excelentes dons naturais precisam ser crucificados com o Senhor e a cruz deve trabalhar em nós. Deveríamos manifestar a cruz não somente em nossa vida, mas também em nossa obra. Antes de alcançar a maturidade, tendemos a considerar que a força natural não é prejudicial, mas proveitosa. Desejamos saber por que não podemos valer-nos da força natural. Só quando vemos que a obra realizada valendo-nos da habilidade natural causa apenas aceitação temporária por parte dos outros, e não efetua uma sólida obra do Espírito Santo no espírito das pessoas, é que começamos a entender que o dom natural é insuficiente e devemos procurar um poder maior. Quão numerosos são os que pregam a cruz com a força da própria pessoa!

Não estou dizendo que eles não têm a experiência da cruz. É possível que realmente a tenham. Enquanto trabalham, não declaram que estão confiando nos próprios dons ou poder. Pelo contrário, oram diligentemente e procuram obter a bênção de Deus e a ajuda do Espírito Santo. Até certo ponto, sabem que não são dignos de confiança. Contudo, todas essas realizações não os ajudam, porque na parte mais profunda de seu coração eles ainda confiam em si mesmos, achando que sua eloqüência, lógica, pensamentos ou parábolas vão comover as pessoas! O significado da crucificação é estar desamparado, em fraqueza e em temor e tremor. Isso quer dizer morrer. Isso é o que ocorre quando uma pessoa é crucificada. Portanto, se manifestamos a vida da cruz na vida diária, deveríamos também manifestar o espírito da cruz na obra do Senhor. Devemos considerar-nos desamparados e sempre achar-nos indignos de confiança, estando em temor e tremendo por nós mesmos. Se fizermos isso, obteremos fruto por meio da confiança no Espírito Santo.

Somente os que estão crucificados estão dispostos e aptos a confiar no Espírito Santo e em Seu poder. Sempre que tivermos a mínima confiança em nós mesmos, não confiaremos no Espírito. Paulo mesmo era alguém que havia sido crucificado com o Senhor. Ao trabalhar, ele manifestava o espírito da cruz. Ele não era de forma alguma autoconfiante. Por ter pregado o Salvador da cruz à maneira da cruz, ele tinha a demonstração do Espírito e de poder (1 Co 2:4). Devemos ser capazes de dizer como Paulo que "o nosso evangelho não chegou até vós tão-somente em palavra, mas, sobretudo, em poder, no Espírito Santo e em plena convicção" (1 Ts 1:5). Se o Espírito e Seu poder não operaram por trás do nosso falar, nossas palavras serão inúteis mesmo que sejam atraentes. Oh! que possamos desprezar as habilidades naturais e estar dispostos a perder tudo a fim de ganhar o poder do Espírito Santo de Deus!

Nisso reside a chave para a diferença entre frutificação e esterilidade num evangelista. Algumas vezes, vemos dois evangelistas que têm a mesma eloqüência e expressões. Contudo, Deus é capaz de usar um deles para dar muito fruto. O outro pode ser espiritual e bíblico no falar, e o público pode também prestar muita atenção a ele; entretanto, nada resulta do seu falar; não há fruto. Não é difícil descobrir a razão por trás dessa diferença. Segundo minha observação, posso ver que um deles é uma pessoa realmente crucificada; ele tem a experiência. O outro somente permanece na imaginação. Os que não têm nada exceto "imaginações" certamente não podem pregar a cruz à maneira da cruz. Se os que têm a vida da cruz proclamam sua experiência a partir do seu espírito, o Espírito Santo certamente estará com eles. Mesmo que alguns sejam mais eloqüentes que outros e sejam capazes de analisar e ilustrar bem, o Espírito Santo não operará com eles a menos que a cruz já tenha feito uma obra sólida em seu coração. O que nos falta é a obra profunda da cruz em nós, que resulte no Espírito Santo trabalhando conosco em nossa pregação do evangelho e em Sua vida fluindo por nosso intermédio. Embora o Senhor possa por vezes utilizar nossos dons naturais, essa não é a fonte da frutificação. As obras feitas por meio da vida natural são essencialmente obras vãs. Somente as obras realizadas por meio da vida sobrenatural podem produzir muito fruto.

Aqui podemos considerar outra passagem da Bíblia. Isso nos explicará a diferença entre confiar na vida natural e confiar na vida sobrenatural. O Senhor Jesus disse: "Se o grão de trigo não cair na terra e morrer, fica ele só; mas se morrer, produz muito fruto. Quem ama a sua vida da alma, perde-a e quem odeia a sua vida da alma neste mundo, guardá-la-á para a vida eterna" (Jo 12:24-25).

Aqui o Senhor explicou detalhadamente o princípio de produzir fruto. O grão de trigo deve primeiro morrer para então produzir muito fruto. A morte é a vereda necessária para a produção de fruto; é o único caminho para produzir fruto. Costumamos orar ao Senhor que nos conceda maior poder para produzir mais fruto. Entretanto, o Senhor disse-nos que primeiro devemos morrer e ter a experiência da cruz antes ter a autoridade do Espírito Santo. Freqüentemente tentamos saltar sobre o Gólgota para alcançar o Pentecoste. Pouco percebemos que sem a cruz a crucificar-nos e despojar-nos de tudo o que é natural, o Espírito Santo não pode trabalhar conosco para ganhar a outros. Somente por meio da morte pode haver a produção de fruto.

A natureza do fruto aqui também prova o que dissemos anteriormente, que o propósito de nossa obra é dar vida a outros. Quando o grão de trigo morre, produz muitos grãos. Ao morrer, dispensa vida a muitos outros grãos. Todos esses outros grãos contêm vida em si mesmos. A vida que possuem origina-se de um grão morto. Se de fato morrermos, poderemos tornar-nos canais de vida de Deus e dispensar vida a outros. Essa vida não é um termo vazio; com ela existe o real poder de Deus. Quando esse poder é liberado de nós, ele dá vida às pessoas.

Aqui, o fruto resultante do grão de trigo é múltiplo; é "muito fruto". Quando estamos restringidos em nossa vida, o máximo que conseguimos obter pelo labor é uma ou duas pessoas. Isso não quer dizer que não salvaremos ninguém. Entretanto, quando morrermos como o grão de trigo, daremos "muito fruto". O que quer que façamos, mesmo se formos negligentes em umas poucas palavras, ainda assim levaremos outros a ser salvos ou edificados. Que possamos produzir muito fruto!

Mas, exatamente, que significa cair na terra e morrer? Compreenderemos isso ao ler a seguinte palavra do Senhor: "Quem ama a sua vida da alma, perde-a; e quem odeia a sua vida da alma neste mundo, guardá-la-á para a vida eterna". Vida aqui é mencionada algumas vezes. No texto original, diferentes palavras são utilizadas para "vida". Uma denota a vida da alma e a vida natural. Outra denota a vida espiritual e a vida extraordinária. Portanto, o que o Senhor Jesus diz aqui é: "Quem ama a vida da alma perderá a vida espiritual; e quem odeia a vida da alma neste mundo, guardará a vida espiritual para a eternidade". Posto de maneira simples, esse versículo diz-nos que deveríamos colocar a vida da alma na morte da mesma maneira que um grão de trigo é plantado na terra. Posteriormente, daremos muito fruto na vida espiritual, que permanecerão eternamente. Queremos ter muito fruto. Entretanto, não sabemos como levar à morte a vida da alma e como fazer viva a vida espiritual. A vida da alma é simplesmente a vida natural. A carne é capaz de viver por causa da vida da alma. A vida da alma é o órgão pelo qual vivemos. Tudo o que uma pessoa possui por natureza, como vontade, poder, emoção e pensamento, são todos partes da alma. Tudo o que a vida natural possui é o subproduto da vida da alma. O intelecto, pensamento, eloqüência, emoção e habilidades pertencem à vida da alma. A vida espiritual é a vida de Deus. Essa vida não se desenvolve de nenhuma parte da vida da alma, mas é especificamente dada a nós por Deus quando cremos na cruz do Senhor e somos regenerados. O que Deus efetua em nós agora é desenvolver essa vida espiritual e fazê-la crescer. Todas as nossas boas obras e o poder para trabalhar resultam da vida espiritual. Sua intenção é conduzir nossa vida da alma à morte. (A morte referida aqui é diferente daquela em 2 Coríntios 4, que é de outro aspecto).

Muitas vezes o poder da nossa obra vem da habilidade natural ou da vida da alma. Descobrimos que sempre precisamos usar nossa eloqüência, sabedoria, conhecimento e habilidades. Uma das coisas mais terríveis é o poder que empregamos na pregação; ele provém da vida da alma. Exercitamos o poder natural. Isso reduz drasticamente o fruto. Em nossa obra, não sabemos como aplicar o poder da vida espiritual. Muitas vezes, tomamos a vida da alma como se fosse a vida espiritual. Como resultado, acabamos por fazer uso do poder natural. Freqüentemente, temos de aguardar até que todo o poder natural de nosso corpo se esgote antes de começar a confiar no poder da vida espiritual. Muitos nem mesmo chegam a esse padrão. Sempre que se sentem fracos no vigor físico, reconhecem que não podem mais trabalhar. Outros que estão mais adiantados continuariam na fraqueza e prosseguiriam a trabalhar tentando confiar na força do Senhor. Entretanto, se verdadeiramente compreendermos a maneira de morrer para nossa força natural (anímica), e se crermos no poder da vida espiritual que Deus pôs em nós, não dependeremos da força natural para o nosso trabalho, seja nos momentos em que estivermos sem essa força, seja quando estivermos cheios dela. Fico triste que muitas obras cristãs permaneçam na alma, não obstante o fato de esses cristãos serem muito zelosos e sinceros. Tal obra jamais toca a esfera espiritual. A diferença entre usar o poder espiritual e o poder anímico é algo que palavras não conseguem explicar. Somente podemos compreendê-la no espírito e no coração. Contudo, quando o Espírito Santo nos iluminar, chegaremos à percepção plena dela na experiência.

Porque é preciso cuidar da fraqueza que há entre os muitos filhos de Deus, trataremos essa questão em detalhes. Contudo, podemos somente aguardar que o Espírito Santo de Deus nos mostre pessoalmente o significado real dessa verdade e a maneira de praticá-la na experiência. Existem principalmente três aspectos para as características da obra da alma. Primeiro é a habilidade natural, segundo é a emoção, e terceiro é a mente.



A HABILIDADE NATURAL


Já mencionamos anteriormente a questão das habilidades naturais. Algumas pessoas são mais inteligentes; são naturalmente mais espertas que outras. Algumas são muito eloqüentes; ao falar, seus argumentos são sempre muito razoáveis. Algumas são muito analíticas; podem analisar um problema de maneira lógica. Algumas são muito fortes fisicamente; podem laborar dia e noite sem nenhum descanso. Algumas são muito capazes; são muito boas em administrar negócios. Sabemos que Deus de fato utiliza as habilidades naturais do homem, mas o homem sempre toma ocasião do uso de suas habilidades por Deus para confiar em todas as habilidades naturais. Por exemplo, podemos ter aqui uma pessoa que é lenta na comunicação, mas hábil em administrar negócios, e outra que pode ser muito eloqüente, mas incapaz de administrar negócios. Se o Senhor pedir que ambos dêem uma •mensagem, a primeira certamente sentirá que é lenta em se expressar e que deve, portanto, confiar totalmente no Senhor. A segunda considerar-se-á muito eloqüente. Embora também ore, ela não estará tão desesperada como a primeira. Por outro lado, se o Senhor pedir que ambas cuidem de um negócio, a primeira não confiará no Senhor tão desesperadamente quanto a segunda! A habilidade natural é o poder da vida da alma. Não nos damos conta de quanto confiamos em nós mesmos e de quanto dependemos do poder da alma quando trabalhamos! A vista de Deus, muitas e muitas das nossas obras são feitas pelo poder da alma.



A EMOÇÃO


Algumas emoções originam-se de nós mesmos. Outras originam-se de outras pessoas. Algumas vezes aqueles a quem amamos não são salvos ou não correspondem às nossas expectativas. Como resultado, ficamos inquietos. Damos o máximo para salvá-los ou edificá-los. Esse tipo de trabalho é quase sempre ineficaz, pois a sua motivação origina-se da emoção. Certas vezes recebemos uma graça especial de Deus; nosso coração enche-se de luz e regozijo. Parece que um fogo queima em nós, dando-nos alegria inefável. Nesses momentos, a presença de Deus torna-se muito real. Quando a alma é incitada dessa forma, as emoções tornam-se muito fortes. Em tais circunstâncias é fácil trabalhar pelo Senhor. Nosso coração sente como se estivesse a ponto de transbordar. Dificilmente podemos conter-nos de falar do Senhor aos outros. Geralmente, podemos estar cônscios que devemos ser cuidadosos com as palavras. Entretanto, nesses momentos quando o coração enche-se de especial luz, balbuciamos sem cessar sobre as coisas de Deus. Tais obras são totalmente da emoção. Alguns acham que só podem trabalhar quando sentem esse tipo de fogo no coração e quando eles mesmos são arrebatados como que ao terceiro céu. Quando o Senhor leva embora essa alegria "perceptível", eles sentirão que toneladas de peso estão em seus ombros e não podem dar um passo mais. Algumas vezes o seu coração está frio como gelo; não há sequer uma emoção. Em tais momentos, sentem que não podem mais pregar. Sentem-se secos e frios no interior. Como resultado, são incapazes de trabalhar. Mesmo ao obrigar-se a trabalhar, não têm o menor gosto pelo que fazem. Seu labor é totalmente controlado pelos sentimentos interiores. Quando os sentimentos corretos estão presentes, eles levantam vôo como águias. Quando esses sentimentos se vão, eles vacilam e recusam-se a prosseguir. Sentimentos, estímulos e emoções são parte da vida da alma. Portanto, os santos que são dominados por sentimentos, estímulos e emoções trabalham pelo poder da vida da alma; ainda não estão capacitados a levar essas coisas à morte nem são capazes de trabalhar no espírito.



A MENTE


Nosso trabalho é sempre influenciado ou controlado pela mente. Por não saber como buscar a vontade de Deus, muitas vezes tomamos os pensamentos da mente como se fosse a vontade de Deus e nos desviamos. Acompanhar a mente e estabelecer a conduta de alguém na mente é algo muito perigoso. Algumas vezes, quando preparamos uma mensagem, esforçamo-nos para exercitar a mente e preparar resumos, seções, exposições, significados e exemplos. Esses sermões são muito mortos; podem prender a atenção das pessoas e causar certo interesse, mas não podem dispensar vida aos outros.

Existe outro trabalho da mente. Creio que muitos obreiros de Deus freqüentemente encontram-se envolvidos nesse indesejável trabalho. É a memória. Nós, por vezes, pregamos aos outros a partir da memória! Memorizamos as mensagens que ouvimos e falamos aos outros a partir do que lembramos. Às vezes falamos às pessoas partindo das passagens da Bíblia que memorizamos ou de velhos sermões, velhos comentários. Tudo isso são obras da mente. Não quer dizer que nunca tenhamos experimentado o que pregamos. Talvez o que saibamos e lembremos sejam coisas ensinadas por Deus. Talvez realmente tenhamos experimentado as coisas que sabemos e lembramos. Entretanto, isso não descarta o fato de que ainda são obras da mente. Podemos ter experimentado uma verdade, que ao tempo da nossa experiência pode ter sido vida para nós. Contudo, após um tempo o conhecimento da verdade permanece somente na nossa cabeça. Começamos a pregar de memória a verdade que experimentamos anteriormente, mas isso se tornou mero trabalho da mente. Nossa mente e memória são órgãos da alma. Confiar nelas significa confiar no poder da vida da alma. Ainda estamos sob o controle da vida natural.

Essas três coisas são os itens principais da obra da alma. Tal obra anímica não é pecado; não significa que seja absolutamente incapaz de salvar pessoas. Entretanto, os frutos serão escassos. Deveríamos vencer essa obra da alma confiando na cruz. O Senhor Jesus disse-nos que a vida da alma deveria cair na terra e morrer como um grão de trigo. Segundo a experiência, amamos muito as habilidades naturais. Amamos os sentimentos e confiamos na mente. Porém, o Senhor disse-nos que deveríamos odiar a vida da alma. Se não a odiarmos, pelo contrário, a amarmos, perderemos o poder da vida espiritual sobrenatural. Nessa questão, a morte da cruz deve realizar uma profunda obra. Devemos entregar à cruz a vida da alma que apreciamos. Devemos estar dispostos a morrer com o Senhor aqui e a remover a dependência das habilidades naturais, dos sentimentos e da mente. Não removemos essas obras com relutância. Pelo contrário, odiámos de âmago delas. Em nossa obra, devemos não somente estar despreocupados sobre ter ou não habilidades naturais, sobre ter ou não emoções e pensamentos, mas devemos ir além e nutrir uma aversão por tal vida natural e estar dispostos a entregá-la à crucificação.

Se tivermos a atitude constante de odiar a vida da alma do lado negativo, e se não formos em nada transigentes, aprenderemos na experiência a confiar no poder da vida espiritual e produzir fruto para Deus.



A MANEIRA DE UMA PESSOA CRUCIFICADA PREGAR A CRUZ


Na prática, em toda ocasião e lugar que o Senhor incumbir-nos de testificar por Ele, devemos afugentar novamente todo e qualquer desejo em nós de confiar nas habilidades naturais. Devemos deixar de lado a emoção e não dar atenção aos sentimentos. Mesmo nos momentos em que não temos sentimentos ou quando a emoção está fria como gelo, precisamos ajoelhar-nos diante do Senhor e pedir-Lhe que realize uma obra da cruz mais profunda em nós para que sejamos capazes de conduzir as emoções e agir segundo a ordem do Senhor, a despeito de a emoção estar fria ou quente. Podemos pedir ao Senhor que nos fortaleça o espírito e aplique um golpe fatal em nossa alma, na cruz. Se fizermos isso, o Senhor nos concederá graça e derrotará nossas frias emoções. Mesmo se já sabemos o que estamos para pregar, não tentamos cavar esses ensinamentos da cabeça ou mente. Pelo contrário, humilhamo-nos diante de Deus e pedimos a Ele que de maneira fresca nos ilumine com os ensinamentos que conhecemos antes e novamente os imprima em nosso espírito de modo que o que pregamos não se torne mero rearranjo da nossa velha experiência, mas um fresco encontro em nossa vida. Desse modo, o Espírito Santo confirmará com poder o que pregamos. É melhor que gastemos longo tempo diante do Senhor antes da pregação a fim de permitir que Sua palavra (com algumas das quais já estamos familiarizados por um longo tempo) seja impressa em nosso espírito de novo. Algumas vezes, isso não toma muito tempo. O Senhor pode imprimir Sua mensagem em nosso espírito em poucos minutos. Para que isso ocorra, nosso espírito deve estar muito aberto ao Senhor e intimamente ligado a Ele nas horas normais.

Devemos prestar atenção a esse ponto. Isso tem muito a ver com o sucesso ou fracasso. Alguém pode pedir a um cristão apóstata que libere uma mensagem. Ele pode falar da experiência passada exercitando a memória. Pode até falar persuasivamente. Entretanto, sabemos que o Espírito Santo possivelmente não poderá operar com ele. Todas as obras feitas por nós pelo exercício da memória são mais ou menos equivalentes à pregação de crentes apóstatas. Temos de perceber que muitas vezes o trabalho que realizamos pela mente é desperdício de energia. A mente só pode alcançar a mente das pessoas; jamais pode mover o espírito delas ou dar-lhes vida. Velhas experiências nunca podem equipar-nos para novas obras. Precisamos deixar Deus renovar em nosso espírito as velhas experiências.

A mesma coisa é mais verdadeira ainda no que diz respeito a pregar a salvação da cruz aos pecadores. Podemos ter sido salvos há muitas décadas. Se trabalharmos a partir da memória, não será a nossa mensagem velha demais e sem sabor? Somente quando percebemos de novo em nosso espírito a desgraça do pecado, experimentamos de novo o amor da cruz e compartilhamos com Cristo de Seu desejo intenso de que os pecadores se acheguem a Ele, é que seremos capazes de retratar a cruz de forma viva diante dos homens (Gl 3:1) e levá-los a crer. Caso contrário, se tentarmos persuadir outros pelo nosso amor e zelo, poderemos terminar ficando endurecidos e frios! É possível que enquanto pregamos o sofrimento da cruz, nosso coração não tenha sido sequer tocado pelos sofrimentos e não tenha sido derretido por eles!

Devemos abrir o espírito ao Senhor e permitir ao Espírito Santo derramar Suas palavras e Sua mensagem por meio do nosso espírito, de modo que primeiramente nosso espírito seja infundido com a palavra do Senhor e a mensagem que pregamos. Não devemos depender de sentimentos, habilidades naturais e pensamentos, mas confiar unicamente no poder do Espírito Santo e devemos permitir que Sua mensagem seja impressa em nosso espírito bem como no espírito dos ouvintes. Toda vez que pregamos, devemos ser como Isaías, que primeiro recebeu um encargo para a profecia e, então, proferiu-a. Em Isaías 13-23, a frase "sentença tal em tal lugar" é muito significativa. Toda vez, antes de pregar a palavra de Deus, devemos receber a incumbência de Deus em nosso espírito. Sempre que pregamos, devemos tomar o encargo da mensagem que pregamos em nosso espírito e não considerá-lo liberado até que nossa obra seja feita. Devemos orar para que o Senhor nos dê esse encargo a fim de que nossa obra não resulte das emoções, habilidades naturais ou mente. Devemos também ter a experiência de Jeremias, que disse: "Quando pensei: . não me lembrarei dele e já não falarei no seu nome, então isso me foi no coração como fogo ardente, encerrado nos meus ossos; já desfaleço de sofrer e não posso mais" (20:9). Não devemos pregar Suas palavras descuidada ou tolamente. Pelo contrário, devemos primeiramente deixar que elas queimem em nosso espírito a ponto de sermos compelidos a falar. Entretanto, se não estivermos dispostos a levar à morte a vida da alma e sua força, nunca estaremos aptos a receber a palavra fresca do Senhor em nosso espírito.

Portanto, irmãos, se almejamos ser usados pelo Senhor para salvar pecadores, reavivar os santos e anunciar a cruz, devemos deixar a cruz trabalhar em nós. Por meio dessa obra, por um lado, tornamo-nos desejosos de ser levados à morte por causa do Senhor, e, por outro, ficamos desejosos de levar nossa vida da alma à morte. Ao mesmo tempo, não mais confiamos em nós mesmos ou em qualquer coisa que advenha de nós. Pelo contrário, odiámos toda a nossa força natural. Dessa maneira veremos a vida de Deus e Seu poder fluírem para o espírito das pessoas por intermédio do nosso falar.

Entretanto, embora como pregadores do evangelho estejamos prontos do nosso lado, ainda podemos falhar. É claro que podemos não falhar completamente, mas por que falhamos? Isso se deve a:



A OPRESSÃO E ATAQUE DE SATANÁS


Satanás não aprecia nossa pregação da cruz nem um pouco. Quando somos fiéis em falar da cruz, ele certamente levantará muitas oposições. Ele sempre pode iniciar os seguintes ataques contra os mensageiros da cruz.

Satanás ataca os mensageiros da cruz levando-os a ficar doentes ou a perder a voz enquanto dão uma mensagem. Pode colocá-los em perigos, fazer com que fiquem deprimidos e percam a liberdade no espírito, e sufocá-los. Pode ainda trabalhar no ambiente incitando mal-entendidos, oposições e, algumas vezes, até mesmo perseguições. Pode produzir mau tempo para desencorajar as pessoas de vir às reuniões. Pode causar súbito distúrbio ou confusão nas reuniões. Pode produzir barulho de animais e choro de bebês. Algumas vezes, opera na atmosfera da reunião, fazendo com que fique pesada e sufocante e causando sonolência e trevas. Todas essas são obras do inimigo. O pregador da cruz deve estar bem atento a essas coisas.

Uma vez que temos tal adversário e tais oposições, torna-se necessário que conheçamos a vitória da cruz. A obra perfeita do Senhor na cruz não apenas solucionou o problema dos pecadores, mas também pronunciou o juízo sobre Satanás. Ele já derrotou Satanás na cruz. Hebreus 2:14-15 diz: "Para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse todos que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida". Colossenses 2:15 diz: "Despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz". A cruz é o lugar onde Satanás é vencido. Ele recebeu seu ferimento mortal na cruz. Sabemos que o Filho de Deus se manifestou para destruir as obras do diabo (1 Jo 3:8), mas onde elas foram destruídas? A resposta óbvia é: "na cruz". Sabemos também que o Senhor Jesus veio para "amarrar o valente" (Mt 12:29), mas onde Ele o fez? Naturalmente, isso também ocorreu na cruz do Gólgota. Precisamos saber que o Senhor Jesus obteve a vitória na cruz.



A VITÓRIA DA CRUZ


Devemos saber que Satanás já é um inimigo derrotado. Por essa razão, não devemos ser derrotados nunca mais. O inimigo não deve mais ser capaz de proclamar vitória sobre nós. Ele não tem mais o direito de ser vitorioso! Ele não pode proclamar mais nada, a não ser sua derrota total. Portanto, tanto antes de ver a obra de Satanás como depois de vê-la, devemos exaltar a vitória da cruz. Devemos louvar a vitória de Cristo. Antes de iniciar a obra, devemos dizer diante do Senhor: "Louvado seja o Senhor, pois Ele é vitorioso! Cristo é o Vencedor! Satanás foi derrotado! O inimigo foi destruído! O Gólgota significa vitória! A cruz significa vitória!" Podemos declarar isso continuamente até estar seguros no espírito que o Senhor terá a vitória desta vez. Devemos firmar-nos na base da cruz e orar pela vitória de Deus. Devemos pedir que Deus derrote todas as obras do diabo. Tanto por nós mesmos como pelos que vêm à reunião, devemos suplicar a Deus que nos cubra com o precioso sangue do Senhor Jesus para que não venhamos a estar sob o ataque de Satanás, mas, pelo contrário, vencê-lo. "Eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro" (Ap 12:11). Dessa vez, enquanto trabalhava no sul da província de Fukien, Satanás veio oprimir-me e atacar muitas vezes. O que o Senhor me mostrou foi que eu deveria permanecer firme na base da cruz e louvá-Lo. Algumas vezes meu espírito sentiu grande opressão; não pude estar livre. Foi como se mil toneladas estivessem sobre meu coração. Umas poucas vezes ao entrar no local de reuniões pude sentir a atmosfera poluída; o diabo trabalhava ativamente. Sob tais circunstâncias orei muito, mas sem sucesso. Entretanto, no momento que comecei a louvar a vitória de Cristo na cruz, gloriar-me na cruz e desprezar o inimigo, dizendo-lhe que ele não podia mais agir e estava destinado ao fracasso, senti real libertação, e a atmosfera do local de reuniões mudou. Louvado seja o Senhor! A cruz é vitoriosa! Louvado seja o Senhor! Satanás está derrotado! Devemos aprender a aplicar a múltipla vitória da cruz mediante a oração para resistir aos ardis, ao poder e aos ataques do inimigo. Levantando-se oposições e confusão, podemos recorrer à vitória da cruz no Gólgota. Apesar de não sentir nada, devemos crer que ao invocar a vitória da cruz, o inimigo é derrotado.

Se estivermos realmente identificados com a cruz dessa maneira, se permitirmos que ela realize uma obra mais profunda em nossa vida e em nosso serviço a Deus, e se confiarmos plenamente na sua vitória, Deus irá conceder-nos a vitória aonde quer que formos. Que Deus faça de nós, servos inúteis, Seus obreiros irrepreensíveis.


[1] Alguns manuscritos antigos trazem mistério como variante de testemunho (IBB-Rev.) (N.T.)


Watchman Nee

É permitido baixar, copiar, imprimir e distribuir este arquivo, desde que se explicite a autoria do mesmo e preserve o seu conteúdo.

“Todo-Poderoso , aquele que era , que é, e que há de vir.”
“Ora, vem, Senhor Jesus!”

Um comentário:

Anônimo disse...

Amo a mensagem da cruz. Este estudo do irmão Nee é uma benção. glória a Deus.
graça e paz.
Claudio Morandi

claudioamorandi@hotmail.com